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15/09/2013

Celeste

Celeste

 É tão divina a angélica aparência
E a graça que ilumina o rosto dela,
Que eu concebera o tipo da inocência
Nessa criança imaculada e bela.

Peregrina do céu, pálida estrela,
Exilada da etérea transparência,
Sua origem não pode ser aquela
Da nossa triste e mísera existência.

Tem a celeste e ingênua formosura
E a luminosa auréola sacrossanta,
De uma visão do céu, cândida e pura.

E quando os olhos para o céu levanta,
Inundados de mística doçura,
Nem parece mulher parece santa.


[Adelino Fontoura] 

SERENATA DO ADEUS

SERENATA DO ADEUS

Ai, a lua que no céu surgiu
Não é a mesma que te viu
Nascer dos braços meus...
cai a noite sobre o nosso amor
E agora só restou do amor
Uma palavra: Adeus...

Ai, vontade de ficar
Mas tendo de ir embora...
Ai, que amor é se ir morrendo
Pela vida afora
É refletir na lágrima
O momento breve
De uma estrela pura
cuja luz morreu...

Ò mulher, estrela a refulgir
Pane, mas antes de partir
Rasga o meu coração...
crava as garras no meu peito em dor
E esvai em sangue todo o amor
Toda a desilusão...

Ah, vontade de ficar
Mas tendo de ir embora...
Ai, que amar é se ir morrendo
Pela vida afora
É refletir na lágrima
O momento breve
De uma estrela pura
cuja luz morreu
Numa noite escura
Triste como eu...

(Vinícius de Moraes)

TE AMO

TE AMO

Sobre todas as coisas, te amo
Te amo por tua beleza, cravejada de ouro e cinzas

Te amo por esta branda fúria que trazes no olhar,
que quando não me fuzilas,
me elevas ao último céu

Te amo pelo desespero que me provocas,
e por esta repentina paz que me despertas,
pouco antes de minha morte

Te amo por nunca me ouvires quando te chamo,
e por estares sempre presente,
quando menos te quero

Te amo por tuas mentiras mal contadas,
das quais, por vezes faço questão de acreditar,
e pela incredulidade que me fazes sentir,
diante das tuas mais obscenas verdades ...

Por fim,te amo, porque é só o que sei fazer;
te amo simplesmente pelo que tu és,
e pelo que nunca fostes.

(Marcelo Roque)

ESPERA AMOR!



ESPERA AMOR!

Perco-me no abismo do teu olhar
Morrem flores neste entardecer
Perde-se Vida num constante acenar
Mas a esperança volta sempre a florescer.

O tempo é como rapaz novo, a correr
Torna minha solidão ainda maior
Já nem o corpo me quer obedecer
Resta o tempo de lembrarmos amor.

Perco coisas que aprendi a amar
O tempo é colete de forças que me põe à prova
Que me aperta sem cessar
Mas deixa ainda no meu peito uma emoção nova.

Perco-me no abismo do teu olhar
Olhas-me de medo de me ver cair
Hesitante de palavras mas com vontade de gritar
ESPERA AMOR... a noite mansa que há-de vir!?

E assim foi sempre entre o deitar e o dormir
A nossa festa com brilho e chama
Esquecidos do tempo do porvir
É nesta hora que a gente sempre se ama.

(Natalia Nuno)

PALCO DA VIDA


PALCO DA VIDA

Seja a vida como um grande palco,
onde os atores entram em cena em silêncio,
e o abrirem-se as cortinas, soem aplausos,
mais um espetáculo se inicia......Vida!

Seremos então, nosso próprio espelho, ao destino,
e nessa imagem refletida, nos veremos,
faremos o papel de nós mesmos, no real, no trágico
no cômico e absurdo dos dias...Sonhos!

Entre vaias e aplausos, contracenando com o tempo,
dias, meses, anos se passando em compasso lento,
deixando suas marcas gravadas como ilusões,....Vento!

E ao fecharem-se as cortinas, saudades, lembranças,
o eterno de nós permanece, tatuado na memória da platéia,
que se despede, o ato termina, no etéreo Palco da Vida!

(Reggina Moon)

Amanhecimento

Amanhecimento

De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
Para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.

(Elisa Lucinda)

A MURALHA

A MURALHA

E serás a muralha
Que construíste à tua volta.
E serás a mortalha
Dos sonhos que constróis sem rota.

E queres ser livre,
Mas o aroma assusta pelo seu peso.
E queres que te libertem,
Mas o libertador terá que ficar preso.

E ele será mais muralha,
Numa composição perfeita.
E ele se transformará em tralha,
Porque a muralha tem que ser refeita

Muralha tão perfeita
Que se confunde contigo, a “perfeição”.
A entrada ficou tão estreita,
Como te hão-de chegar ao coração?

(António Viana)

POEMA


POEMA

Edifica-te:
Longe,
Silencioso,
Só,
Edifica-te admirável,
Com altitudes imensas,
E, para além da humanidade,
Sê grandioso, excessivamente...

Cresce sempre,
Como uma arvore de eterna vida...

Escapa ao que atinge a todos.
Constrói-te para um tempo sem fim,
Que nunca te termine,
Ainda que morras todos os dias!

Sê o infindável,
Feito de renascenças sem termo...

Para lá das amarguras humanas,
Sê o que ficará para consolo e exemplo dos que vierem,
E cujo nome será,
Na terra triste,
Benção imortal para tudo o que vive!...

(Cecília Meireles)

A MINHA NOITE


A MINHA NOITE

Solto-me em visões,
Confesso-me em mistérios
De lua Cheia...

Procuro-te entre o Tempo,
Em nebulosas que desconheço,
Numa intensidade de sussurros,
Em mudos apelos!

E no céu que te ofereço
Sopro letras e palavras
Cúmplices dos meus lábios!

Passeio-me sobre um amor
Feito de melodias insensatas,
Centelhas de desconhecido
Fechadas num mundo que não conheço...

E, no início de nós,
Encontro-te na eternidade
De um luar
Aberto sobre a terra,
No céu da minha noite sem estrelas!

(Goreti Dias)

Leio-te:

LEIO-TE!

Leio-te: — o pranto dos meus olhos rola:
— Do seu cabelo o delicado cheiro,
Da sua voz o timbre prazenteiro,
Tudo do livro sinto que se evola ...

Todo o nosso romance: - a doce esmola
Do seu primeiro olhar, o seu primeiro
Sorriso, - neste poema verdadeiro,
Tudo ao meu triste olhar se desenrola.

Sinto animar-se todo o meu passado:
E quanto mais as páginas folheio,
Mais vejo em tudo aquele vulto amado.

Ouço junto de mim bater-lhe o seio,
E cuido vê-Ia, plácida, a meu lado,
Lendo comigo a página que leio.

(Olavo Bilac)